quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Drama e densidade em Vânia Pereira



Vânia Pereira, um dos nomes significativos da produção artística sul-mato-grossense, produziu um vasto trabalho usando linguagens diversas que determinaram a versatilidade da artista em suas percepções sobre a paisagem, memória e as relações humanas.

Vânia encontrou sua grande expressão no desenvolvimento da gravura em metal, explorando com propriedade a técnica da ponta-seca (processo de gravação da imagem na matriz de metal por incisão direta usando um instrumento com ponta de aço), o que fez da artista referência da linguagem no pioneirismo do uso dessa arte no Estado.

Considerada grande mestra da arte de gravar, desenvolveu também trabalhos em pintura e desenho. A obra de Vânia tem muita dramaticidade e as imagens são geralmente densas, escuras e cada traço negro ou cada pincelada de cor traduz o envolvimento emocional da artista na busca do aperfeiçoamento formal de suas investigações. 

Com boa parte da produção de Vânia Pereira pertencente ao acervo do Museu de Arte Contemporânea de MS (MARCO) é possível estabelecer recortes que enfatizam os vários aspectos de seu trabalho, oferecendo ao público a chance de revisitar a obra consistente dessa artista que contribuiu com personalidade na constituição da história da arte local. 

                                                                   
                                                                    Rafael Maldonado
Julho 2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Exposição Mais para o centro, curadoria de Rafael Maldonado, apresentada no Museu de Arte Contemporânea de MS, de 10 de junho a 03 de agosto de 2014

obra de Humberto Espíndola


Mais para o centro


O conjunto de obras artísticas que compõe uma coleção ou acervo possibilita à ação curatorial maneiras diversas de se articular o conhecimento e interpretação estética que determinamos à arte. Efetuar novas avaliações para as obras, reorganizando-as interessadamente a partir de critérios de seleção, é exercício de conexão, experimentação e especulação que permite o reposicionamento da condição narrativa que elas assumem a priori.

Mais para o centro, título dessa exposição, propõe apresentar alguns dos artistas que estão ou já produziram nos Estados do Centro-Oeste brasileiro, sem a pretensão de se querer representar uma visualidade característica que defina a região, visto que, apesar da proximidade geográfica, cada lugar possui e produz elementos de cultura bem peculiares.

Assuntos e interesses diversos são adotados na construção de discursos particulares que se apropriam da condição humana para o estabelecimento das complexas relações culturais. Tempo, memória, poder, lugar são alguns dos elementos articuladores das práticas artísticas aqui reunidas e revelam o amplo campo expressivo dos artistas que trabalham em locais ainda não plenamente inseridos no roteiro e no sistema de arte no país.

O propósito de ações dessa natureza não traduz o sentimento de menos-valia ou pretende reafirmar a condição de isolamento. O que se quer evidenciar é a necessidade de reposicionamento da cartografia cultural brasileira, deslocando a atenção de instituições que determinam as regras das políticas culturais, oficiais ou não, em direções periféricas, e, nesse sentido, desviando mais recursos e interesse para a produção artística do centro do país.

Essa mostra confirma a diversidade da arte brasileira. Não configura a visualidade singular do Centro-Oeste, mas traduz a identidade plural de artistas que produzem reflexões e questionamentos em consonância com o que se vê frequentemente explorado nos circuitos hegemônicos.

No centro do país encontramos obras significativas produzidas por Ana Ruas, Beto Lima, Camila Soato, Carlos Nunes, Dalton Oliveira de Paula, Divino Sobral, Edson Castro, Evandro Prado, Genésio Fernandes, Gervane de Paula, Helder Rocha, Jorapimo, Humberto Espíndola, Lú Sant’Anna, Marcelo Solá, Mercedes Barros, Ovini Rosmarinus, Priscilla Paula Pessoa, Paulo Rigotti, Vânia Pereira, Virgílio Neto, Zilá Soares, entre tantos outros.

Os trabalhos selecionados integram o acervo do Museu de Arte Contemporânea de MS (MARCO) e coleções particulares de Campo Grande, correspondendo à proposta conceitual que evidencia a autonomia das investigações estéticas dos artistas aqui reunidos, sem que se precise categorizá-los pela realidade ou geografia cultural que os envolvem.

Rafael Maldonado*
Curadoria, maio de 2014


*professor no curso Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), atua como curador independente.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Texto de Herbert Covre sobre a exposição A gravura de Lasar Segall – Poesia da linha e do corte, apresentada no SESC Horto, em Campo Grande, de 18 de fevereiro a 21 de março de 2014.

detalhe da exposição A gravura de Lasar Segall, poesia da linha e do corte


Lasar Segall e a gravura essencial

Nos anos de 1933 e 1934, o artista plástico Lasar Segall, vindo da Lituânia, tendo passado por Berlim e Dresden, e definitivamente se instalado na cidade de São Paulo a partir de 1923, organizou festas carnavalescas para arrecadar fundos com o objetivo de financiar o desenvolvimento das artes plásticas na SPAM – Sociedade Pró-Arte Moderna.
A decoração das festas e a concepção de Segall para as fantasias tinham mais a ver com sua formação artística européia do que com as cores tupiniquins, mas só o fato de aproveitar uma festa brasileira para buscar o desenvolvimento da arte moderna no Brasil merece o aplauso, ainda que tardio.
Pode-se conferir a empolgação do artista com uma festa genuinamente nacional, observando-se a gravura em ponta-seca Carnaval (c.1926), na qual os traços eufóricos e a decoração minuciosa do salão retratam a percepção de Lasar Segall de um evento tão significativo para a cultura brasileira.
Aproveitando o ensejo, faço o convite para uma visita ao SESC HORTO, para conferir a exposição A GRAVURA DE LASAR SEGALL – Poesia da Linha e do Corte, na qual são apresentadas aos sul-matogrossenses, algumas gravuras feitas do período compreendido entre 1913-1930.
É uma ótima oportunidade para ampliar a formação cultural, e entender como que as diversas técnicas empregadas por Lasar Segall, a par demonstrarem seu talento e criatividade, comprovam a necessidade de aprimoramento do método pelo artista, que torna sublime sua obra criada por inspiração, mediante o apuro da realização técnica.
Artista plural - pintor, desenhista, gravador e escultor -, Lasar Segall fez um amálgama de sua formação européia – impressionismo, cubismo, expressionismo -, com as cores tropicais e temas nacionais, em uma brasilidade típica de quem se afeiçoou ao Brasil com amor, pois além de casar-se aqui, adquiriu a nacionalidade brasileira.
Sem nunca deixar de lado sua educação judaica -  o tema aparece na xilogravura Cabeça de Rabino, de 1919 -, Lasar Segall apresenta em sua obra uma intensa preocupação social, de caráter universal, como pode-se perceber nas xilogravuras Mendigo de 1913 e Viúva de 1919.
A temática da realidade social brasileira surge  retratada em sua obra, na qual pode-se constatar seu inconformismo em relação ao preconceito, na série de xilogravuras Cabeça de Negro e Cabeça de Negra, de 1929, assim como a miséria da condição humana está presente na série Mangue, que inclui xilogravuras – Mulher do Mangue, Casal do Mangue, Casa do Mangue-, e gravuras em ponta-seca, como Duas Mulheres do Mangue com Persiana, Duas Mulheres do Mangue com Cactos, o instigante Mulheres do Mangue com Fonógrafo e o lúdico Mulheres do Mangue com Baralho.
Sua origem lituana aparece na série de gravuras em ponta-seca, dedicada à sua cidade natal, Vilna, destacando-se Moça de Vilna e Jovem de Vilna, de 1916, além dos Retratos de T e da Sra. W., ambos de 1919. Especial menção faz-se à gravura em água-forte, Mulher Adormecida, de 1913, na qual os traços do artista se manifestam em tom intimista e delicado, com utilização alternada entre linhas suaves e fortes.
O seu êxodo pessoal, reflexo de sua condição judaica, em busca de seu próprio lugar no mundo, também comparece na exposição, com as obras Emigrantes com Lua (c.1926), Emigrantes e Emigrante Debruçado na Amurada, ambos de 1929, apresentando a singular tristeza de abandonar a terra natal, com o olhar inefável de quem segue o curso da diáspora causada pela Primeira Guerra Mundial. Destaque-se aqui, a possibilidade de comparar a obra Emigrantes com Lua, em sua versão em ponta-seca e a gravada em xilogravura.
O mar é o desafio dos que emigram, a jornada a ser vencida pelos que seguem o êxodo não pelo deserto, mas pelo oceano. E Lasar Segall captou com muita sensibilidade este percurso, como o visitante poderá observar atentamente na obra Ondas, de 1929, na qual o vigor dos traços e a força expressionista do horizonte à distância contrastam com a proximidade da margem.
Por fim, mas não menos importante, vale a análise das obras Mulheres Errantes, e Mulheres Errantes II Versão, ambas de 1919. A pluralidade de enfoques e perspectivas, os traços entre expressionismo e cubismo, a alternância entre os espaços em branco e as sombras que refletem as incertezas da vida, na visão do artista em busca do íntimo do ser humano, lançado à própria sorte num mundo dividido pelas diferenças religiosas, sociais, ideológicas, políticas e culturais.
O convite está feito. Aproveitar a oportunidade que o SESC proporciona desde o dia 18 de fevereiro, até o dia 21 de março de 2014, para admirar a exposição A GRAVURA DE LASAR SEGALL - Poesia da Linha e do Corte, com a obra de um dos precursores do modernismo no Brasil.